Chama-se Galp Base e já está a funcionar num posto em Setúbal. Carlos Barbosa, presidente do ACP, diz que esta é a prova de que a gasolineira 'sempre pôde baixar o preço dos combustíveis'.
Numa tentativa de combater o preço da gasolina dos hipermercados, a Galp lançou um conceito do género, denominado Galp Base, com preços de combustíveis mais baixos. [...]
O Automóvel Clube de Portugal (ACP) já reagiu a este anúncio, referindo que esta é a prova de que a Galp 'sempre pôde baixar o preço dos combustíveis'. 'É uma prova de que tínhamos razão, porque o combustível que a Galp quer agora vender em Setúbal numa chamada ‘bomba piloto’ vai acontecer no resto do país, porque a Galp tem margens para poder baixar os combustíveis', referiu o presidente do ACP, Carlos Barbosa.
O presidente do ACP lembrou ainda que 'Talvez seja altura de perceber que a [Autoridade da] Concorrência não funcionou mais uma vez', desejando que a partir de agora 'tenha percebido a lição, de uma vez por todas, de que os combustíveis podem ser mais baratos em Portugal'.
Questionado sobre o nosso jornal sobre as declarações de Carlos Barbosa, Pedro Marques Pereira foi peremptório. 'Estamos a falar de produtos diferentes. A gasolina é diferente, as infraestruturas são diferentes, o nível de serviço não exige mais do que um empregado. Por isso o preço baixa'.
O anúncio da abertura da Galp Base surge no mesmo dia em que o 'Diário Económico' noticiou que um quarto do mercado dos combustíveis está a escapar às grandes superfícies, dado o crescimento dos postos dos hipermercados que vendem combustíveis mais baratos.
Galp abre guerra aos 'hipers' com gasolina mais barata, Diário de Notícias
Segundo o ACP, a Autoridade da Concorrência não funcionou. A meu ver, se o papel da Autoridade da Concorrência é obrigar as empresas a praticar preços mais baixos porque sim, está condenado ao mais absoluto falhanço. Aliás, qual o sentido disso? Crie-se então uma Autoridade dos Preços Baixos. Só percebo uma Autoridade da Concorrência que sirva para promover (espanto!) a concorrência.
A história é simples. Os principais distribuidores tinham um modelo de negócio idêntico - mesmo tipo de serviço e preços similares. Surgiram postos em hipermercados com preços low-cost e estruturas mais leves. Seguiram-se um rápido aumento do preço dos combustíveis e uma crise económica, que tornaram os consumidores mais sensíveis ao preço. A desconfiança inicial quanto à qualidade dos low-cost (alimentada pelos grandes distribuidores) foi ultrapassada com o tempo e a experiência, e o seu peso cresceu de forma clara.
Hoje em dia, quem dá prioridade aos preços baixos tem postos de abastecimento low-cost, e quem não quer sair do carro para abastecer também tem as suas opções. Isto aconteceu não porque alguém se lembrou de obrigar as gasolineiras a reduzir preços, mas porque o Intermarché, o Carrefour, o E. Leclerc e o Jumbo (pelo menos) perceberam que havia um segmento de mercado que não estava a ser adequadamente servido.
De facto, "os combustíveis podem ser mais baratos em Portugal", mas também podem ser caros, se alguém preferir um serviço mais cómodo. Por isso não faz sentido limitar preços, porque nem todos queremos o mesmo. Precisamos de preços baixos, tal como precisamos de preços altos.
A actuação de reguladores pela proibição é preguiçosa e pouco inteligente. Limitar preços, ou limitar cobranças de taxas e comissões, por exemplo, não trazem qualquer benefício na generalidade dos casos. A meu ver, o foco da actuação deveria ser colocado, isso sim, na promoção da concorrência (facilitar a entrada de empresas no sector) e na publicitação de informação sobre preços e condições de cada oferta.
A partir daí, a decisão é de cada consumidor, com base nas suas prioridades e não nas prioridades da Autoridade da Concorrência.